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sábado, 25 de março de 2023

Introdução à Filosofia: trabalhando com textos «»

  • Texto 1

  • Filosofia: A Crítica das nossas Crenças

    • Jerome Stolnitz

O que significa, especificamente, dizer que a filosofia faz a «crítica» das nossas crenças? Para começar, admitamos que a maior parte das nossas crenças sobre questões vitais como a religião e a moralidade são manifestamente acríticas. Faz uma pausa para avaliar as tuas crenças sobre estas questões, perguntando-te por que razão vieste a ter as crenças que tens. Na maior parte dos casos, podemos afirmar com segurança, irás descobrir que não «vieste a ter» tais crenças em resultado de uma reflexão prolongada e séria sobre elas. Pelo contrário, aceitaste-as com base em alguma autoridade, isto é, um indivíduo qualquer, ou instituição, que te transmitiu essas crenças. A autoridade pode ser os teus pais, professores, Igreja ou amigos. Muitas das nossas crenças são impostas pelo que chamamos vagamente «sociedade» ou «opinião pública». Estas autoridades, regra geral, não te impõem as suas convicções. Ao invés, absorveste essas crenças a partir do «clima de opinião» no qual te desenvolveste. Assim, a maior parte das tuas crenças sobre questões como a existência de Deus ou sobre se por vezes é correto mentir são artigos intelectuais em «segunda mão».

Mas isto não significa, claro, que essas crenças sejam necessariamente falsas ou que não sejam sólidas. Podem perfeitamente ser sólidas. Os artigos em «segunda mão» por vezes são muito bons. O que está em causa, contudo, é isto: uma crença não é verdadeira simplesmente porque uma autoridade qualquer diz que o é. Supõe que, perante uma certa crença, eu te perguntava: «Como sabes que isso é verdade?» Certamente que não seria satisfatório responder «Porque os meus pais (professores, amigos, etc.) me disseram». Isto, em si, não garante a verdade da crença, porque tais autoridades se enganaram muitas vezes. Verificou--se que muitas das crenças sobre medicina dos nossos antepassados, que eles transmitiram às gerações posteriores, eram falsas. E desde que se fundaram as primeiras escolas que os estudantes – graças aos céus – encontraram erros no que os seus professores diziam e tentaram encontrar por si crenças mais sólidas. Por outras palavras, a verdade de uma crença tem de depender dos seus próprios méritos. Se os teus pais te ensinaram que é desastroso abusar de maçãs verdes, então a asserção deles é verdadeira não porque o disseram, mas porque certos factos (muito desagradáveis) mostram que é verdadeira. Se aceitares uma «lei» científica que leste num manual, essa lei deve ser aceite não porque está escrita num manual, mas porque se baseia em provas experimentais e no raciocínio matemático. Temos justificação para aceitar uma crença unicamente quando esta é sustentada por provas experimentais e argumentos sólidos. Mas, como tenho vindo a insistir, a maior parte de nós nunca testa as nossas crenças desse modo.

É aqui que entra a atividade «crítica» da filosofia. A filosofia recusa-se a aceitar qualquer crença que as provas experimentais e o raciocínio não mostrem que é verdadeira. Uma crença que não possa ser estabelecida por este meio não é digna da nossa fidelidade intelectual e é habitualmente um guia incerto da ação. A filosofia dedica-se, portanto, ao exame minucioso das crenças que aceitamos acriticamente de várias autoridades. Temos de nos libertar dos preconceitos e emoções que muitas vezes obscurecem as nossas crenças. A filosofia não permitirá que crença alguma passe a inspeção só porque tem sido venerada pela tradição ou porque as pessoas acham que é emocionalmente compensador aceitar essa crença. A filosofia não aceitará uma crença só porque se pensa que é «simples senso comum» ou porque foi proclamada por homens sábios. A filosofia tenta nada tomar como «garantido» e nada aceitar «por fé». Dedica-se à investigação persistente e de espírito aberto, para descobrir se as nossas crenças são justificadas, e até que ponto o são. Deste modo, a filosofia impede-nos de nos afundarmos na complacência mental e no dogmatismo em que todos os seres humanos têm tendência para cair.

Jerome Stolnitz, Estética e Filosofia da Crítica de Arte, 1960, trad. de Desidério Murcho, pp. 3-6

  • Contextualização

    • Em filosofia, usa-se o termo crença (e por vezes opinião) de forma abrangente. Inclui não apenas as crenças religiosas, mas tudo o que pensamos que é verdade, seja ou não verdade. Por exemplo, todos temos a crença de que 2 é um número par, que a relva é verde ou que não há vida na Lua.

    • Jerome Stolnitz é um filósofo norte-americano contemporâneo que se destacou na filosofia da arte. Nesta área, defendeu uma posição inspirada em Kant, fazendo da experiência estética o elemento mais importante para compreender a arte.

  • Atividades:

Interpretação

1. O que é uma crença acrítica?

2. Explique qual é, segundo o autor, a origem da maior parte das nossas crenças.

3. «Uma crença não é verdadeira simplesmente porque uma autoridade qualquer diz que o é», afirma o autor. Que quer isto dizer?

4. «A filosofia impede-nos de nos afundarmos na complacência mental e no dogmatismo em que todos os seres humanos têm tendência para cair», afirma o autor. Por quê?

Discussão

5. «É preferível viver de acordo com as crenças que nos foram transmitidas pela tradição, em vez de as avaliar criticamente.» Concorda? Por quê?


  • Texto 2

  • Aprender a Pensar

    • Immanuel Kant

O jovem que completou a sua instrução escolar habituou-se a aprender. Agora pensa que vai aprender filosofia. Mas isso é impossível, pois agora deve aprender a filosofar. […] Para que pudesse aprender filosofia teria de começar por já haver uma filosofia. Teria de ser possível apresentar um livro e dizer: «Veja-se, aqui há sabedoria, aqui há conhecimento em que podemos confiar. Se aprenderem a entendê-lo e a compreendê-lo, se fizerem dele as vossas fundações e se construírem com base nele daqui para a frente, serão filósofos». Até me mostrarem tal livro de filosofia, um livro a que eu possa apelar, [...] permito-me fazer o seguinte comentário: estaríamos a trair a confiança que o público nos dispensa se, em vez de alargar a capacidade de entendimento dos jovens entregues ao nosso cuidado e em vez de os educar de modo a que no futuro consigam adquirir uma perspectiva própria mais amadurecida, se em vez disso os enganássemos com uma filosofia alegadamente já acabada e cogitada por outras pessoas em seu benefício. Tal pretensão criaria a ilusão de ciência. Essa ilusão só em certos lugares e entre certas pessoas é aceite como moeda legítima. Contudo, em todos os outros lugares é rejeitada como moeda falsa. O método de instrução próprio da filosofia é zetético, como o disseram alguns filósofos da antiguidade (de zhtein). Por outras palavras, o método da filosofia é o método da investigação. Só quando a razão já adquiriu mais prática, e apenas em algumas áreas, é que este método se torna [...] decisivo. Por exemplo, o autor sobre o qual baseamos a nossa instrução não deve ser considerado o paradigma do juízo. Ao invés, deve ser encarado como uma ocasião para cada um de nós formar um juízo sobre ele, e até mesmo, na verdade, contra ele. O que o aluno realmente procura é proficiência no método de refletir e fazer inferências por si. E só essa proficiência lhe pode ser útil. Quanto ao conhecimento positivo que ele poderá talvez vir a adquirir ao mesmo tempo – isso terá de ser considerado uma consequência acidental. Para que a colheita de tal conhecimento seja abundante, basta que o aluno semeie em si as fecundas raízes deste método.

Immanuel Kant, «Anúncio do Programa do Semestre de Inverno de 1765-1766», trad. de Desidério Murcho, pp. 2:306-307

  • Contextualização

    • Procure numa enciclopédia o significado do termo zetética.

  • Atividades:

Interpretação

1. Segundo o autor, é impossível aprender filosofia. Por quê?

2. Qual é o objectivo do estudo da filosofia, segundo o autor?

3. Qual é o método próprio do ensino da filosofia? Explique o seu significado.

4. Para o autor aprender filosofia é diferente de aprender a filosofar. Qual é a diferença?

5. Explique quais são as diferenças fundamentais entre o método decisivo e o método zetético de ensino.

Discussão

6. «O objectivo do estudo da filosofia é saber o que os filósofos disseram e nada mais.» Concorda? Por quê?

7. «Se em filosofia não há conhecimentos estabelecidos, como em física ou em história, que possam ser ensinados, então a filosofia não deve ser ensinada.» Concorda? Por quê?


 

Fonte: A Arte de Pensar 10a. Aires Almeida e outros. Didactica Editora. 1ª Ed.

Introdução à Filosofia: uma caracterização da filosofia «»

  • Ao perguntar o que uma coisa é, por exemplo “O que é X?”, podemos oferecer uma definição ou uma caracterização de “X”.

    • Há definições do tipo implícita e do tipo explícita:

      • Definições explícitas são expressões que não geram ambiguidades ou dúvidas sobre o que é “X”, pois são claras e precisas. Por exemplo, se “X” for água, podemos fornecer uma definição explícita dizendo que “X” é H2O.

        • No entanto, por vezes definições explícitas podem ser pouco informativas.

      • Definições implícitas não são expressões linguísticas, mas ocorrem pelo contato com o objeto a ser definido, por isso não são claras, ficam sempre subentendidas. Por exemplo, se “X” for água, podemos oferecer uma definição implícita de “X” ao mostrar vários exemplos de água.

        • Contudo, este tipo de definição é muito informativa.

    • Caracterizar uma coisa é apresentar algumas de suas propriedades informativas, porém, estas propriedades não a definem. Por exemplo, se “X” for água, podemos caracterizar “X” dizendo que é um líquido incolor, que serve para matar a sede, que enche rios, lagos e oceanos, e que cai do céu quando chove.

      • Boas caracterizações podem ser extremamente informativas.

  • Em vez de definir a filosofia, vamos caracterizá-la. Para isso, apresentaremos três dos seus aspectos importantes: o seu carácter crítico, o facto de exigir uma tomada de posição e de ser um estudo a priori.

  • A filosofia é uma atividade crítica

    • A filosofia é uma atividade crítica porque consiste em procurar boas razões (ou seja, bons argumentos) para aceitar ou recusar ideias sobre os seus problemas.

      • Ser crítico é analisar cuidadosa e imparcialmente as ideias para procurar determinar se são verdadeiras ou falsas.

    • A atitude crítica opõe-se à atitude dogmática.

      • Ser dogmático é recusar-se a analisar cuidadosa e imparcialmente as ideias, declarando-as verdadeiras ou falsas sem boas razões para isso.

    • Porque a filosofia é uma atividade crítica, fazer filosofia implica avaliar cuidadosamente os nossos preconceitos mais básicos.

      • Um preconceito é uma ideia que tomamos como verdadeira sem razões para tal.

  • A filosofia exige uma tomada de posição

    • O facto de a filosofia ser uma atividade crítica coloca-nos numa posição muito diferente daquela que nos é exigida nas outras disciplinas.

      • Em filosofia, temos de tomar posição.

        • Só que temos de compreender bem que tipo de posição se exige em filosofia. Temos a liberdade de defender qualquer posição em filosofia, mas as nossas posições têm de obedecer a duas condições:

        1. Têm de se apoiar em bons argumentos.

        2. Têm de se apoiar num conhecimento adequado dos problemas, teorias e argumentos da filosofia.

  • A filosofia é um estudo a priori

    • Os problemas da filosofia provocam alguma perplexidade porque são bastante diferentes quer dos problemas de ciências como a biologia ou a história, quer dos problemas da matemática.

      • Como vimos, tentamos resolver os problemas da filosofia recorrendo exclusivamente ao pensamento.

      • A filosofia é, em parte, como a matemática, pois ocupa-se de problemas que não se podem resolver recorrendo à experiência empírica – temos de os resolver recorrendo ao pensamento.

        • É por isso que dizemos que a filosofia é um estudo a priori.

        • Mas, ao contrário da matemática, não há na filosofia métodos formais de prova.

    • Conhecemos algo a priori quando o conhecemos sem recorrer à experiência.

    • Conhecemos algo a posteriori quando o conhecemos recorrendo à experiência.

      • Apesar de a filosofia ser um estudo a priori, para discutir certos problemas filosóficos é preciso usar conhecimentos a posteriori.

      • Apesar disso, a filosofia é a priori, por duas razões:

        • Em primeiro lugar, porque não compete à filosofia recolher essas informações empíricas: isso é feito pelas outras disciplinas.

        • Em segundo lugar, porque essas informações empíricas não permitem, por si, resolver os problemas da filosofia: é preciso pensar cuidadosamente.

        • Apesar de a filosofia ser um estudo a priori, o seu objeto de estudo é a realidade: em filosofia estuda-se a ciência, a religião, as artes, o bem, a liberdade, a justiça, etc. Dizer que a filosofia é a priori significa apenas que a filosofia estuda os problemas não empíricos destas realidades.

  • A atividade filosófica é inevitável. É inevitável porque não é mais do que a procura sistemática de justificações sensatas para as nossas ideias mais básicas – mesmo as nossas ideias acerca da própria filosofia.


  • Atividades:

1. Por que razão é a filosofia uma atividade crítica?

2. O que é o dogmatismo? Explique e dê exemplos.

3. O que é um preconceito? Dê alguns exemplos, explicando por que razão são preconceitos.

4. Diga se as seguintes afirmações são verdadeiras ou falsas e justifique a sua resposta:

a) Todos os preconceitos são ideias falsas.

b) Alguns preconceitos são ideias falsas.

c) Ser crítico é dizer mal dos outros.

d) A filosofia opõe-se ao dogmatismo.

5. O que significa dizer que a filosofia é um estudo a priori?

6. Diga se as seguintes afirmações são verdadeiras ou falsas e justifique a sua resposta:

a) Uma vez que a filosofia é a priori, não precisamos de informação empírica para fazer filosofia.

b) Dado que tanto a filosofia como a matemática são a priori, não há diferença entre as duas.

c) Se sabemos algo a priori, sabemo-lo sem recorrer aos dados dos sentidos.

d) Se sabemos algo a posteriori, sabemo-lo pelo pensamento apenas.

e) O conhecimento de que a neve é branca é a priori.

f) O conhecimento de que os objetos brancos são coloridos é a posteriori.

7. Apresente dois exemplos de problemas a priori e dois exemplos de problemas a posteriori.

8. Explique por que razão a filosofia é inevitável.


 

Fonte: A Arte de Pensar 10a. Aires Almeida e outros. Didactica Editora. 1ª Ed.

quinta-feira, 9 de março de 2023

Introdução à Filosofia: os elementos da filosofia «»

  • O objeto de estudo de uma disciplina é aquilo que a disciplina estuda.

  • O método de uma disciplina é o modo como leva a cabo esse estudo.

    • Define-se muitas vezes as ciências em termos de objeto e método.

  • Também a filosofia tem um objeto e um método de estudo:

    • A filosofia tem como objeto de estudo problemas fundamentais acerca da natureza da realidade, do conhecimento e do valor.

    • O método da filosofia é a discussão crítica.

      • A filosofia tem por objeto de estudo um certo tipo de problemas ou questões. As respostas a esses problemas são aquilo a que se chama teorias ou teses. Estas teorias são, por sua vez, defendidas por meio de argumentos ou raciocínios.

  • Claro que nem todos os problemas são filosóficos; também há problemas científicos, literários, quotidianos e religiosos, entre outros.

    • Para que um problema seja filosófico, tem de poder ser resolvido ou estudado recorrendo exclusivamente ao pensamento, não se podendo recorrer à experimentação científica, à observação, à autoridade ou ao cálculo matemático.

      • Apesar de podermos usar informação empírica obtida pelas ciências.

    • Para garantir que um determinado problema é genuinamente filosófico, temos de ser muito rigorosos ao formular a pergunta que o exprime.

      • É muito importante formular com rigor as perguntas filosóficas também por outra razão. Perguntas que parecem apenas ligeiramente diferentes podem de fato ser muitíssimo diferentes.

    • Para que sejam filosóficas, as respostas aos problemas filosóficos têm de estar fundamentadas.

      • Fundamentar ou justificar publicamente uma resposta é oferecer os melhores argumentos ou razões que conseguirmos imaginar a seu favor – e permitir que as outras pessoas os avaliem criticamente.

      • Quando se estuda filosofia, aprendemos a formular e discutir, com clareza e rigor, os seus problemas, teorias e argumentos.

  • À semelhança do que acontece noutras áreas do conhecimento, os conceitos desempenham um papel muito importante na filosofia.

    • Gramaticalmente, um conceito é uma noção ou ideia geral, como estado, planeta, gene, beleza, verdade, etc.

      • Contudo, num sentido mais filosófico, um conceito é tudo o que pode fazer parte de uma afirmação.

    • Distingue-se a extensão de um conceito da sua intensão (com «s»; não confundir com «intenção»).

      • A extensão de um conceito é as coisas a que esse conceito se aplica.

      • A intensão de um conceito é a propriedade (ou propriedades) que determina a extensão do conceito.

        • Por exemplo, a extensão do conceito de mulher são as mulheres todas. A intensão é as propriedades que distinguem as mulheres de todas as outras coisas, nomeadamente as seguintes: ser membro da espécie Homo sapiens e ser do sexo feminino.

    • Precisamos de definir, ou pelo menos caracterizar com muita precisão, alguns conceitos centrais relacionados com os problemas que queremos discutir.

      • A filosofia ocupa-se de problemas fundamentais que exprimimos através de conceitos como os de realidade, conhecimento, valor, beleza, justiça, arte, bem moral, etc.



  • Atividades:

1. Qual é o objeto e o método da filosofia?

2. Explique o que distingue os problemas filosóficos dos outros problemas?

3. Explique por que razão nem todas as respostas aos problemas filosóficos são filosóficas?

4. Explique qual é a relação entre os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia?

5. O que se aprende a fazer quando se estuda filosofia?

6. Explique a importância dos conceitos em filosofia.

7. Dos problemas abaixo, escolha 2 que sejam filosóficos e tente dar-lhes uma resposta filosófica, isto é, fundamentada:

a) Será que a vida tem sentido?

b) Será que os crentes são mais felizes do que os ateus?

c) Os animais têm direitos?

d) Como podemos saber que o mundo não é uma ilusão?

e) O que é a arte?

f) Será um pecado tomar a pílula?

g) Será a existência de Deus compatível com o sofrimento?

h) O que é uma lei da física?

i) Qual é a composição da atmosfera de Júpiter?


 

Fonte: A Arte de Pensar 10a. Aires Almeida e outros. Didactica Editora. 1ª Ed.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Introdução à Filosofia: um pouco de história

 

  • A filosofia surgiu na Grécia antiga há cerca de 2500 anos, no séc. VI a. C. Os primeiros filósofos foram Tales de Mileto (c. 624-546 a. C.) e Pitágoras (c. 580-500 a. C.).

  • A própria palavra «filosofia» foi inventada pelos gregos, e significa literalmente «amor pela sabedoria». ‘Filos’ significa amor, amizade e ‘sofia’ significa sabedoria.

  • Vamos agora percorrer rapidamente a história da filosofia?

    • Essa história está tradicionalmente divida em quatro grandes períodos: Filosofia antiga; Filosofia medieval; Filosofia moderna; Filosofia contemporânea.

      • Vejamos brevemente cada um deles:

  • Filosofia antiga

    • Período pré-socrático: os primeiros filósofos são conhecidos como «pré-socráticos» e dedicaram uma especial atenção à cosmologia, isto é, ao estudo da origem e natureza última do universo.

      • Principais filósofos: Parmênides (séc. V a. C.), Heráclito (c. 535-475 a. C), Empédocles (c. 490-430 a. C.) e Demócrito (c. 460-370 a. C.).

    • Período clássico: Sócrates (c. 470-399 a. C.) e Platão (c. 427-347 a. C.) dedicaram depois uma atenção especial a problemas éticos e políticos, fazendo da procura de definições explícitas de conceitos básicos a sua atividade principal. Aristóteles (384-322 a. C.) desenvolveu praticamente todas as áreas da filosofia e da ciência, e estabeleceu firmemente o estudo sistemático de problemas filosóficos e científicos.

    • Período helenístico: depois de Aristóteles floresceram várias escolas dedicadas ao estudo da filosofia e surgiram vários filósofos muitíssimo influentes, como Epicuro (306-271 a. C.) e Zenão de Cítio (c. 336-264). Estes foram os filósofos que mais influenciaram a vida e o pensamento do Império Romano.

  • Filosofia medieval

    • Na Idade Média (séculos V a XV ) a filosofia foi estudada num contexto sobretudo religioso. Muitos filósofos deste período foram extraordinariamente perspicazes, tendo desenvolvido algumas ideias e argumentos hoje considerados centrais em filosofia.

    • Alguns dos debates mais importantes da época incluem o problema dos universais, as provas da existência de Deus e a compatibilidade entre a presciência divina (a capacidade para saber de antemão o que vai acontecer) e o livre-arbítrio humano.

    • Alguns dos mais destacados filósofos ocidentais do período medieval foram Santo Agostinho (354-430), Santo Anselmo (1033-1109), Abelardo (1079-1142), S. Tomás de Aquino (1225-74), Duns Escoto (c. 1265-1308) e Guilherme de Ockham (c. 1287-1347).

  • Filosofia moderna

    • Na Idade Moderna (séculos XVI , XVII e XVIII ), a teoria do conhecimento foi considerada por muitos filósofos o ponto de partida da filosofia. Descartes (1596-1650) tornou-se um dos mais influentes filósofos de sempre.

    • Neste período, a oposição entre empirismo e racionalismo tornou-se central. Os empiristas defendiam que todo o conhecimento resultava fundamentalmente dos sentidos, ao passo que os racionalistas defendiam que algum conhecimento resultava fundamentalmente da razão.

    • Do lado racionalista, juntamente com Descartes (1596-1650), estão filósofos como Espinosa (1632-77) e Leibniz (1646-1716). Do lado empirista, filósofos como Hobbes (1588-1679), Locke (1632-1704), Berkeley (1685-1753) e Hume (1711-76).

    • Outros filósofos importantes deste período foram Voltaire (1694-1778) e Jean-Jacques Rousseau (1712-78).

    • Kant (1724-1804) prossegue o trabalho dos filósofos racionalistas e empiristas. A sua obra foi uma das mais influentes de sempre.

      • Os seus sucessores alemães, Fichte (1762-1814) e Hegel (1770-1831), adotaram o idealismo: a doutrina de que a realidade tem uma natureza mental.

    • Schopenhauer (1788-1860) adotou a filosofia de Kant, mas desenvolveu uma filosofia pessimista, muito influente nos sécs. XIX e XX , segundo a qual a existência humana é completamente desprovida de sentido.

    • Jeremy Bentham (1748-1832) desenvolveu o utilitarismo, uma das mais importantes teorias éticas e políticas, e a principal rival da ética de Kant e da filosofia política de Marx (1818-83).

  • Filosofia contemporânea

    • No séc. XIX , e sobretudo a partir do séc. XX , a filosofia conheceu uma vitalidade e diversidade que ultrapassou qualquer período histórico anterior.

    • Alguns filósofos alemães e franceses fundaram correntes como o existencialismo, a fenomenologia e a hermenêutica.

      • Nestas áreas, destacaram-se filósofos como Husserl (1859-1938), Heidegger (1889-1976) e Sartre (1905-80).

    • Alguns filósofos ingleses e americanos deixaram-se influenciar decisivamente pelo trabalho de Frege (1848–1925), Russell (1872-1970) e Wittgenstein (1889-1951).

    • A filosofia, tal como as artes e as ciências, entrou no séc. XXI com um grau de sofisticação, pertinência e alcance nunca antes atingido.


  • Atividades:

1. Em sua opinião, o que significa dizer que o filósofo é amigo da sabedoria?

2. Quais são os grandes períodos da história da filosofia?

3. Escreva algo sobre o que você sabe de cosmologia?

4. O que defendem o racionalismo e o empirismo?

5. Pesquise sobre filósofos brasileiros e escreva a respeito da vida, da obra e do pensamento de algum deles.

 

Fonte: A Arte de Pensar 10a. Aires Almeida e outros. Didactica Editora. 1ª Ed.

 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

1º Ano - Resumo: Unidade 01 (Como pensamos?) - Capítulo 01 (Filosofia: O que é isso?)


1º Ano - Unidade 01 (Como pensamos?) - Capítulo 01 (Filosofia: O que é isso?)

*Colocando o problema
→ O pensamento filosófico acontece quando somos tirados do lugar-comum, quando nos deparamos com um problema.
→ Pensar filosoficamente não é algo comum. É um acontecimento raro e que produz transformações em nossa vidas.
→ Foi por meio do exercício do pensamento que o ser humano transformou o mundo e a si mesmo, criando ferramentas para enfrentar o problema da sobrevivência.
→ Também o pensamento dispõe de ferramentas (as tecnologias da inteligência), instrumento que criamos para tornar o pensamento mais eficiente: a oralidade, a escrita, a informática.
→ O seres humanos utilizaram as tecnologias da inteligência para elaborar diferentes tipos de conhecimentos. A filosofia é uma deles.
→ O que distingue a filosofia são seus instrumentos e aquilo que ela produz: os conceitos.

*A filosofia na história
→ De origem grega, a palavra filosofia é composta de phílos – amigo, amante – e sophía – sabedoria. O significado de filosofia, portanto, é “amor ou amizade pela sabedoria.
→ A filosofia é um movimento daquele que não sabe em direção a um saber, uma vontade de conhecer o mundo e a si mesmo.
→ Para Michel Foucault há duas formas de compreender a filosofia: 1) como busca da sabedoria; 2) como um trabalho de cada um sobre si mesmo, um modo de constitui a própria vida.
→ Pensar filosoficamente é refletir sobre só mais diversos problemas e situações sem aceitar automaticamente os conhecimentos recebidos.
→ Na reflexão em busca do conhecimento, a filosofia elabora conceitos.
→ “Todo os homens são filósofos”, pois todo ser humano utiliza conceitos, ou até mesmo os formula, em alguns momentos da vida.
→ A filosofia surgiu na Grécia, no século VII a. C.. Tales de Mileto (c. 625 a. C. - 556 a. C.) é considerado o primeiro filósofo.
→ Dentre as características da Grécia antiga que propiciaram o ambiente para o surgimento da filosofia, podemos destacar: 1) a civilização grega antiga construiu uma cultura pluralista; 2) os gregos eram estimulados a pensar por conta própria; 3) os gregos gostavam de discutir e polemizar.
→ O primeiros filósofos, em sua maioria, praticavam ensinamentos orais; sua prática era discursiva (baseada na fala) e dialógica (fundamentada no diálogo), como a de Sócrates. Os que produziam textos, geralmente utilizaram a forma poética.
→ Platão, ao contrário, escrevia em forma de diálogos, acreditando que por meio deles seria possível chegar a um refinamento de ideias. Método depois denominado dialética.
→ Emitir uma opinião não é pensar filosoficamente: a opinião é um pensamento subjetivo, uma ideia vaga sobre a realidade, que não tem fundamentação e na maioria das vezes nem pode ser explicada.
→ A filosofia, diferentemente, é uma prática de elaboração própria de ideias; parte da opinião, mas a recusa como verdade e vai além; busca uma reflexão mais sólida, por da qual o ser humano se realize em sua capacidade racional; as ideias elaboradas dessa forma podem ser defendidas com argumentos consistentes.
→ A prática filosófica humaniza as pessoas, tornando-as mais livres pra pensar de forma crítica e criativa.